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RENASCIMENTO PARTE III - OS MÉDICI - Condensado do livro Heróis da História, de Will Durant) Divaldo Suruagy

O governo formal de Florença era comandando pela Signoria, ou Conselho dos Signori, ou Cavalheiros, escolhidos por sorteio entre os líderes das associações, e eventualmente fiscalizado por um Consiglio Del Popolo (Conselho do Povo), escolhido entre os demais membros das associações. Mas, em geral, o verdadeiro governo era exercido por um banqueiro que podia organizar florins com uma influência mais sutil e mais forte do que o poder eleitoral. Na época áurea de Florença é essa figura foi Cosimo de Médici
Em 1428, aos 39 anos, Cosimo tornou-se herdeiro da maior fortuna da Toscana, controlando um banco, enormes propriedades rurais, algumas fábricas de seda e lã, e um comércio variado com a Rússia, a Síria, a Escócia e a Espanha. Mantinha relações cordiais com cardeais e sultões. Contribuía tão fortemente pra obras e beneficências públicas que a população aceitava tranquilamente a sua ditadura indireta nos assuntos florentinos.
A história também lhe dá o seu voto porque Cosimo arranjou dinheiro suficiente para financiar um grupo de estudiosos, artistas, poetas e filósofos. Gastou parte da sua fortuna reunindo textos clássicos. Quando Niccolò de Niccole se arruinou comprando antigos manuscritos, Cosimo concedeu-lhe um crédito extra no banco Médici e o sustentou até o fim da vida.
Fundou, em Florença (1445), uma Academia Platônica para estudar Platão e possibilitou que Marsilio Ficina dedicasse metade da vida a traduzir e expor as obras de Platão. Então, depois de um reinado de quatrocentos anos, a escolástica perdera a soberania sobre a filosofia do Ocidente, e o espírito estimulante de Platão penetrou como um fermento energético no nascente conjunto do pensamento europeu.
No apogeu florentino Filippo Bruneleschi ergueu sobre a Catedral de Santa Maria del Fiore uma cúpula precária que se eleva a 44 metros acima das paredes de sustentação e que domina por léguas em volta o panorama de Florença. Naquela mesma época, Lourenço Ghiberti desenhou e esculpiu em bronze as portas almofadadas que tornaram o Batistério de Florença uma das glórias mais duradouras do Renascimento.
Donatello não produziu apenas uma série de obras-primas, persuadiu Cosimo a comprar relíquias escolhidas de esculturas antigas e colocá-las nos jardins dos Médici para que jovens artistas as estudassem. Patrono e artista envelheceram juntos, e Cosimo cuidava tanto do escultor que Donatello raramente pensava em dinheiro. Mantinha seus recursos (diz Vasari) num cesto suspenso ao teto do seu estúdio e pedia aos auxiliares e amigos que tirassem dali o necessário para as suas necessidades, sem consultá-lo. Viveu na simplicidade e contente até os 80 anos de idade (1466). Todos os artistas – e praticamente todo o povo – de Florença participaram do funeral que o conduziu para descansar, como ele pedira, na cripta de San Lourenço, ao lado do túmulo do próprio Cosimo.
Cosimo falecera em 1464. Seu filho Piero herdara-lhe a riqueza, a autoridade e a gota, merecendo o apelido de Il Gottoso. Durante cinco anos governou e morreu em 1469 e deixou o poder para o filho Lourenço, o futuro Il Magnifico.
Cosimo fizera o máximo para preparar o brilhante jovem para administrar o dinheiro e os homens. Lourenço recebera aulas de grego e filosofia e absorvera uma série de disciplinas ao ouvir a conversa de poetas, estadistas, artistas, humanistas e generais. Escreveu sonetos apaixonados para damas da aristocracia. Piero, achando que o casamento seria um bom remédio para tanto romance, persuadiu Lourenço a casar-se com Clarice Orsini, aliando assim os Médici a uma das mais poderosas famílias de Roma. Dessa união nasceriam os papas Leão X e Clemente VII.
Dois dias depois da morte de Piero, uma delegação de importantes cidadãos foi até Lourenço e pediu-lhe que assumisse o controle do Estado. As circunstâncias o convenceram. As finanças da firma Médici estavam tão emaranhadas com as da cidade que ele temeu a ruína, caso os seus inimigos ou os rivais da sua família tomassem o poder político. Para tranquilizar a crítica por ter aceito, ele nomeou um conselho de cidadãos experientes para aconselhá-lo em todas as matérias de maior importância.
O criterioso historiador Guicciardini disse: “Se Florença tinha de ser governada por um déspota, não poderia ter encontrado um mais encantador”. Os mercadores preferiam a prosperidade à liberdade: o proletariado estava controlado com obras públicas que garantiam o emprego, os torneios atraíam a elite, as corridas de cavalos excitavam a burguesia, e os préstitos divertiam o populacho.
Dos préstitos de Lourenço, o mais famoso foi o “Triunfo de Baco”, no qual uma procissão de carros levando lindas donzelas e um punhado de rapazes ricamente vestidos, montados em belos corcéis, atravessaram a Ponte Vecchio até a espaçosa praça diante da catedral, enquanto vozes cantavam em harmonia polifônica, acompanhadas de címbalos e alaúdes.

 

Postado em: 01/09/10 13:25    [ 0 comentários ] [ indique esta mensagem ]

RENASCIMENTO - Parte II - A Base Econômica - (Condensado do livro Heróis da História, de Will Durant) Divaldo Suruagy

Era preciso mais do que reviver a Antiguidade para fazer o Renascimento. Em primeiro lugar, era preciso dinheiro – dinheiro malcheiroso, burguês: lucros de administradores habilidosos e de mão-de-obra mal paga. De arriscadas viagens para o Oriente e de árduas travessias dos Alpes para comprar mercadorias baratas e vender caro, de cuidadosos cálculos, investimentos e empréstimos, de juros e dividendos acumulados até haver superávit suficiente para os prazeres da carne, para comprar senadores, Signori e amantes, pagar um Michelangelo ou um Ticiano que transmutassem riqueza em beleza e perfumassem a fortuna com o sopro da arte.
O dinheiro é a raiz de toda a civilização. Os recursos de mercadores, banqueiros e da Igreja pagaram os manuscritos e reviveram a Antiguidade. Mas, não forma exclusivamente esses manuscritos que libertaram a mente e os sentidos no Renascimento: foi o secularismo que surgiu com a ascensão da classe média; foi o crescimento das universidades, do conhecimento e da filosofia, o estimulo realista às mentes através do estudo da história e das leis, a ampliação das mentes através do estudo da história e das leis, a ampliação das mentes através de um conhecimento mais vasto do mundo. Ao duvidar dos dogmas do credo transmitido, e vendo o clero tão epicurista quanto o laicato, o italiano culto libertou-se das restrições éticas e intelectuais; seus sentidos liberados adquiriram um prazer ousado por todas as personificações da beleza, na natureza, na mulher, no homem e na arte; e essa nova liberdade tornou-o criativo durante um século surpreendente (1434-1534), até ele se destruir com caos moral, individualismo desintegrador e sujeição nacional. O Renascimento foi o interlúdio entre essas duas disciplinas.
Por que o norte da Itália foi o primeiro local a experimentar esse despertar primaveril? Ali as velhas fontes romanas jamais haviam sido totalmente destruídas; as cidades mantiveram suas estruturas e memórias amigas, e agora renovavam a lei romana.
A arte clássica sobrevivera em Roma, Verona, Mântua, Pádua. O Panteão de Agripa ainda funcionava como lugar de culto, embora tivesse mil e quatrocentos aos, e no Fórum quase se podiam ouvir Cícero e César debatendo o destino de Catilina. A língua ainda era uma língua viva, da qual o italiano era simplesmente uma variante melodiosa. Ritos, mitos e deuses pagãos sobreviviam na memória popular ou em formas cristãs. A Itália permaneceu transversal ao Mediterrâneo, comandando aquela clássica bacia de civilização e comércio.
O norte da Itália era mais urbano e industrial do que qualquer outra região da Europa, exceto Flandres. Jamais sofrera um feudalismo pleno, mas, submetera os nobres às cidades e à classe dos mercadores. Era a avenida comercial entre o resto da Itália e a Europa Transalpina, e entre a Europa Ocidental e o Levante: seu comércio e sua indústria fizeram dela a região mais rica da cristandade. Seus negociantes aventureiros estavam por toda parte, desde as feiras da França até os portos mais longínquos do mar Negro. Acostumados a líder com gregos, árabes, judeus, egípcios, persas, indianos e chineses, perderam o limite dos dogmas e trouxeram para as classes cultas da Itália a mesma indiferença pelos credos que aconteceu – pela segunda vez – na Europa no Século XIX, a partir da ampliação do contato com fés estrangeiras.
Assim, a Itália avançou em riqueza, artes e idéias, um século à frente do resto da Europa; e foi só no século XVI, quando o Renascimento decaía na Itália, que floresceu na França, Alemanha, Holanda, Inglaterra e Espanha. O Renascimento não foi um período no tempo, mas, sim um modo de viver e pensar que se deslocou da Itália para o resto da Europa com o curso do comércio, da guerra e das idéias.
Acrescentou-se um estímulo feliz quando Cosimo de Médici ofereceu recursos da sua fortuna e de outras pessoas, bem como palácios, para abrigar e entreter os delegados do Concílio de Florença (1439). Os prelados e eruditos gregos que compareceram àquela assembléia para discutir a união dos cristianismos oriental e ocidental conheciam muito melhor a literatura grega do que qualquer florentino da época, alguns deram aulas em Florença, e a elite da cidade amontoou-se para ouvi-los. Quando Constantinopla caiu nas mãos dos turcos (1453), muitos gregos abandonaram-na para se estabelecer na cidade onde haviam encontrado hospitalidade catorze anos antes. Vários levaram manuscritos adicionais de textos antigos. Assim, com o concurso de vários fluxos de influência, o Renascimento adquiriu forma em Florença e transformou-a na Atenas da Itália. Por trás da primazia cultural de Florença estavam a indústria, o comércio e as finanças.
 

 

Postado em: 23/08/10 15:26    [ 0 comentários ] [ indique esta mensagem ]

RENASCIMENTO PARTE I - (Condensado do livro Heróis da História, de Will Durant) Divaldo Suruagy


A Idade Média passou para o Renascimento quando, na Sexta-feira Santa de 1327, numa igreja da Avignon Papal, Francesco Petrarca viu Laura di Sade, cuja beleza delicada, duplicada pela modéstia, o fez esquecer qualquer outra atividade.
Os poemas de Petrarca, sua sensibilidade para com a beleza da mulher, da natureza, da literatura e da arte, deram voz à disposição de ânimo, básica dos italianos; e a busca apaixonada pela tradução dos manuscritos clássicos fizeram com que ele se tornasse querido por poetas e prelados de toda a Europa Ocidental.
Em Roma, no dia 8 de abril de 1341, um animado cortejo de jovens e senadores acompanhou Petrarca aos degraus do Capitólio e, ali, colocou-lhe na cabeça uma coroa de louros. A partir desse dia, reis e papas o recebiam alegremente em suas cortes, como príncipe reinante das letras européias.
Boccaccio, à época, tinha 28 anos de idade. Nascera em Paris, como resultado não-premeditado de um pacto amistoso entre seu pai, um mercador florentino, e uma francesa, partidária de princípios libertários. Talvez esse nascimento imprevisto e essa origem semigaulesa tenham influenciado seu caráter e seu estilo.
Assim, o Renascimento, desde o início, era favorável aos prazeres e desafios deste mundo terreno, em vez das delícias hipotéticas de um paraíso, após a morte. O Renascimento restaurou, não apenas a literatura da Antiguidade Clássica, mas, também, a busca de uma liberdade hedonística. Em parte, foi uma liberação pagã dos sentidos, depois de milhares de anos de disciplina moral apoiada em convicções sobrenaturais.
Porém, era preciso mais do que reviver a Antiguidade para fazer o Renascimento. Em primeiro lugar, era preciso dinheiro – dinheiro malcheiroso, burguês: lucros de administradores habilidosos e de mão-de-obra paga, de arriscadas viagens para o Oriente e de árduas travessias dos Alpes.
O dinheiro é a raiz de toda a civilização. Os recursos de mercadores, banqueiros e da Igreja pagaram os manuscritos e reviveram a Antiguidade. Mas, não foram, exclusivamente, esses manuscritos que libertaram a mente e os sentidos no Renascimento: foi o secularismo, que surgiu com a ascensão da classe média, foi o crescimento das universidades, do conhecimento e da filosofia, o estímulo realista às mentes, através do estudo da história e das leis, a ampliação das mentes, através de um conhecimento mais vasto do mundo.
A arte clássica sobrevivera em Roma, Verona, Mântua e Pádua. O Panteão de Agripa ainda funciona como lugar de culto, embora tivesse mais de mil e quatrocentos anos, e, no Fórum, quase se podiam ouvir Cícero e César debatendo o destino de Catilina. A língua latina ainda era uma língua viva, da qual o italiano era simplesmente uma variante melodiosa. Ritos, mitos e deuses pagãos sobreviviam na memória popular ou em forma cristãs. A Itália permaneceu transversal ao Mediterrâneo, comandando aquela clássica bacia de civilização e comércio.
Seus negociantes aventureiros estavam por toda parte, desde as feiras da França até os portos mais longínquos do mar Negro. Acostumados a lidar com gregos, árabes, judeus, egípcios, persas, indianos e chineses, perderam o limite dos dogmas e trouxeram para as classes cultas da Itália a mesma indiferença pelos credos que aconteceu, na Europa, a partir da ampliação do contato com fés estrangeiras.
Assim, a Itália avançou em riqueza, arte e idéias, um século à frente do resto da Europa, e foi no século XVI, quando o Renascimento decaía na Itália, que floresceu na França, Alemanha, Holanda, Inglaterra e Espanha. O Renascimento não foi um período no tempo, mas, sim, um modo de viver e pensar que se deslocou da Itália para o resto da Europa, com o curso do comércio, da guerra e das idéias.
O primeiro lar do Renascimento foi Florença, quase pelas mesmas razões pelas quais nascera na Itália. Através da organização da indústria, da extensão do comércio e da atuação de seus financistas, Florença, a cidade das flores, no século XIV era a cidade mais rica da península, excetuando-se Veneza. Enquanto os venezianos, nessa época, dedicavam suas energias quase inteiramente à busca do prazer e da riqueza, os florentinos, possivelmente sob o estímulo de uma semidemocracia turbulenta, desenvolveram uma tal sagacidade de mente e espírito e uma tal habilidade em todas as artes, que tornaram a cidade, unanimemente, a capital cultural da Itália. As brigas entre facções elevavam a temperatura da vida e das idéias. Famílias rivais competiam pelo patrocínio das artes, assim como na busca do poder.

 

Postado em: 19/08/10 13:31    [ 1 comentário ] [ indique esta mensagem ]

IDADE MÉDIA (Condensado do livro Heróis da História, de Will Durant) Divaldo Suruagy

A vitória da palavra sobre a espada, e do centro sobre partes da cristandade, foi manchada pelo fracasso das Cruzadas e pelos horrores da Inquisição.
As Cruzadas, convocadas pelo Papa Urbano II, em 1098, significaram o esforço romântico das Europas, Ocidental e Oriental, para resgatar, do islamismo para o cristianismo, o Oriente Próximo, tanto no comércio quanto na fé. Fracassaram, em ambos os objetivos, pois, o Oriente Próximo permaneceu em mãos muçulmanas e a riqueza, a ciência, a arte e a sabedoria dos mouros despertaram nos cruzados derrotados um ceticismo que logo afligiu a ortodoxia cristã com inúmeras heresias.
Inocêncio III, como qualquer governante, considerava a heresia como traição, como a secessão de uma parte em relação à ordem e à paz do todo. Ascendendo, ao papado, em 1198, viu nesses avanços uma ameaça, tanto à Igreja quanto ao Estado. Reconheceu alguns motivos para a crítica à Igreja, mas percebeu que não poderia ficar inativo enquanto a grande organização que chefiava, e que lhe parecia o principal baluarte contra a violência, o caos social e a real iniquidade, era atacada em suas próprias bases, espoliada de seus bens e ridicularizada com blasfêmias disfarçadas.
“O pequeno barco de São Pedro está sendo atingido por muitas tempestades, e balanços no mar. Mas, o que me atinge mais do que tudo é...que...agora surgem, mais desenfreados e prejudiciais do que nunca, ministros que cometem erros diabólicos e que estão seduzindo as almas dos simples. Como suas superstições e mentiras, pervertem o significado da Sagrada Escritura e tentam destruir a unidade da Igreja Católica”.
Depois de esperar seis anos, Inocêncio deu a Arnaud de Cîteaux, chefe dos monges cistercienses, plenos poderes para estabelecer uma inquisição na França e oferecer indulgência plenária a reis e nobre que se unissem a ele, nessa nova cruzada.
O mais rude dos cruzados foi Simon de Montfort. Como muitos homens desse período de fanfarronadas, ele era famoso pela castidade e por haver servido, com honras, na Palestina. Com um pequeno exército de 4.500 homens, e premido por um emissário papal, ele atacou cidade após cidade, derrubou qualquer resistência e fez a população escolher entre jurar fidelidade à fé romana ou morrer como herege. Milhares juraram, centenas preferiram morrer. Durante quatro anos, Simon continuou suas campanhas, devastando praticamente todo o território
A Inquisição não teve dificuldade em encontrar textos bíblicos que autorizassem a morte por heresia. Praticamente, todos os cristãos professavam a crença de que a Igreja fora fundada pelo Filho de Deus. Nessa suposição, qualquer ataque à fé católica era uma ofensa contra o próprio Deus. O herege contumaz só poderia ser visto como agente de Satã.
Estado e Igreja uniram-se, num ataque pavoroso, contra heresias que, nas suas opiniões, corroeriam a complexa estrutura das leis e da moral, evitando que os homens voltassem à anarquia moral e política. Praticamente, todos os governos desafiados aderiram à Inquisição e puniram as opiniões e condutas consideradas perigosas para o Estado.
A Idade Média adornou o milênio com uma literatura muitas vezes prazerosa, e, às vezes, suprema no gênero. Os excelentes trovadores que floresceram na França, no Século XI, e, depois, em terras germânicas e na Espanha, vestiam-se como lordes, brandiam as espadas tão bem quanto as penas e sonhavam com delicados adultérios com nobres damas que, no máximo, permitiam que lhes beijassem a mão.
É provável que essa inacessibilidade tenha estimulado os versos, É difícil romantizar, com o desejo satisfeito, e, onde não há impedimentos, não há poesia. Os trovadores destacaram-se nas alvoradas, ou canções do amanhecer, e nas serenatas, ou canções noturnas cortejando a noite e deploraram o dia.
A alma medieval, como uma célula inchada, explodiu em dois organismos históricos: o Renascimento, pagão, clássico e epicurista, no sul; e a Reforma, patrística, estóica e puritana, no norte. Transformou-se em duas culturas poderosas e, através delas, cumpriu a sua tarefa histórica de salvar e transmitir a civilização.

 

 


 

Postado em: 11/08/10 15:33    [ 1 comentário ] [ indique esta mensagem ]

O CRESCIMENTO DA IGREJA - (Condensado do livro Heróis da História, de Will Durant) Divaldo Suruagy


Em 312, Constantino, conduzindo um exército da Gália para Turim, para enfrentar rivais que reclamavam o trono de Roma, viu no céu (diz a lenda) uma cruz em chamas adornada com as palavras gregas EM TOUOI NIKA (“Com este símbolo vencerás”). No dia seguinte ele anunciou que aceitava o cristianismo e venceu uma batalha decisiva. Marchou para leste, derrotou o rival e fez de Bizâncio – mais tarde renomeada para Constantinopla – a capital do Império Romano do Oriente, que logo substituiu Roma como centro do poder político.
Aos poucos, à medida que as invasões bárbaras desafiaram a autoridade secular, a proteção e a administração da ordem social saíram dos funcionários pagãos das cidades da Europa Ocidental para as mãos de bispos, abades e sacerdotes cristãos, sob a liderança do papa em Roma; e a Igreja, em vez do Estado, tornou-se a fonte e a guardiã da civilização. Muitos dos chamados “bárbaros” já haviam aceitado o cristianismo, e eram mais receptivos aos papas do que aos imperadores.
O povo da Europa Ocidental se acalmou com vários reis guerreiros, como Alfredo, o Grande, na Inglaterra, Carlos Magno na França e os imperadores Otos e Henriques na Alemanha, mas, esses governantes buscavam a consagração papal como um amparo necessário e como confirmação do próprio poder – a qualquer momento eles podiam perder esse poder, se o papa os excomungasse. Ano após ano, o papado cresceu em influência, até que os reis o reconheceram como a suprema autoridade em todas as questões de moral – o que podia significar quase todos os assuntos importantes. Assim, o imperador Henrique IV foi até Canossa (em 1077) fazer penitência e pedir o perdão e a reintegração ao cargo ao Papa Gregório VII, Hildebrando.
Essa “República Cristã”, ou esse superestado papal, atingiu o apogeu com o Papa Inocêncio III. No período de dezoito anos (1198-1216), ele forçou todos os monarcas da Europa Latina, exceto Sverrir da Noruega, a reconhecerem-lhe a soberania em matéria de fé, moral e justiça, inclusive o poder de liberar povos inteiros do juramento de obediência para com os respectivos reis. Alguns Estados – Portugal, Hungria, Sérvia, Bulgária, Armênia e até a Inglaterra do rei João – reconheceram feudos do papado. Em 1204, a conquista da Constantinopla realizada pelos cruzados fez com que a Igreja Grega se submetesse ao papado romano e Inocêncio pode declarar, orgulhoso, que então “a túnica de Cristo não tinha emendas”. Um visitante bizantino que fora a Roma descreveu Inocêncio não apenas como o herdeiro de Pedro, mas, sim como o sucessor de Constantino.
 

Postado em: 03/08/10 15:39    [ 0 comentários ] [ indique esta mensagem ]

PIERRE CHALITA


Na Maceió de minha adolescência, quando as pessoas se conheciam pelo nome e pela atividade desenvolvida, raras eram as famílias estrangeiras que residiam em nossa capital. A maioria de origem portuguesa, como os Magalhães, Nogueira, Beirão e Soares, e quase todos, inclusive a minoria de outras nacionalidades, dedicados ao comércio, transformaram-se em parceiros e co-responsáveis pelo deslanchar do progresso alagoano.
A empresa Dois Irmãos, na Avenida Moreira Lima, composta de empório e fábrica de gelo, pertencia a libaneses, cujo proprietário, senhor Gabriel, casado com dona Amini Najim Chalita, era pai de vários filhos. As meninas, Zezé, Hanriette e Vitória, destacavam-se pela requintada educação e pela beleza oriental. Entre os rapazes, convivi mais de perto com Antônio, o caçula, pois fazíamos parte da Turma da Praça Deodoro. Pierre, que nascera em 1930, era dotado de uma sensibilidade nata. Desde cedo, encantava os irmãos com seus pendores criativos. Por volta dos 15 anos, já produzia as primeiras telas, talento que viria a aperfeiçoar no Recife e na Escola Nacional de Belas Artes, do Rio de Janeiro. Em 1955, graduou-se em arquitetura, na então Capital Federal. No afã de saber sempre mais, cursou a Real Academia de San Fernando, na Espanha, e a École des Beux Arts de Paris.
Fundação Pierre Chalita, que manteve um conceituado e ativo ateliê, pelo qual já passaram, como alunos, muitos dos atuais talentos da arte contemporânea. Também instalou um Museu para o qual transferiu, por doação, considerável acervo de sua coleção privada.
Figurando, com destaque, em vários catálogos especializados, sempre mereceu elogiosas referências de quantos comentaram sua obra, como é o caso do álbum Arte Contemporânea de Alagoas, editado pela TRIKEM:
"Pierre expôs, pela primeira vez, individualmente, em 1954, na galeria da própria Escola Nacional de Belas Artes. De lá para cá, somam as dezenas suas individuais, por todo o país e até no exterior: Beirute, Madrid, Paris, Roma e Viena.
Seus trabalhos mereceram análises elogiosas de críticos renomados, como os espanhóis Carmem Deben e Fernando Montejam, a libanesa Gladys Chami, o francês Jean Labarthe e os brasileiros José Roberto Teixeira Leite, Ruy Sampaio e Walmir Ayala.
Ao longo dos anos, a numerosa obra de Chalita distribuiu-se por duas grandes vertentes: a série do Paraíso - cronologicamente, a primeira de cores frias (predomínio dos azuis, dos lilases e dos verdes) e inequívocas raízes michelanescas (pelos ignudi, do último estilo do genial florentino). Chalita investe, com feroz ironia, contra todos os poderes temporais e espirituais que cerceiam a liberdade humana. Já na Série do Baile - de filiação rubeniana e colorido quente (pela combinação das terras e muitos vermelhos) - o artista revela os dramas do desamor e da solidão em grupo que se escondem sob as aparências da sensualidade exacerbada e até de certos aspectos grotescos.
Em trabalhos mais recentes, Chalita vem realizando uma síntese admirável dos valores plásticos dessas duas vertentes costumeiras (sobretudo no que concerne aos esquemas cromáticos, tornados menos estanques), ao tempo em que se firma uma espécie de surrealismo aéreo, com figuras humanas dispostas em espirais barrocas e cavalos que se afrontam em espaços infinitos".
Seu nome e sua arte representam um justo orgulho para todos nós, seus conterrâneos, que reconhecemos no trabalho de Pierre Chalita um incentivo às artes em nosso Estado.
 

Postado em: 30/07/10 12:28    [ 0 comentários ] [ indique esta mensagem ]

São Pedro & São Paulo (Condensado do livro Heróis da História, de Will Durant) Divaldo Suruagy



Durante algum tempo, as autoridades judaicas toleraram a seita por ser pequena e inofensiva, mas quando os “nazarenos” em poucos anos se multiplicaram de 120 para 8 mil, os sacerdotes se alarmaram.

Pedro e outros foram presos e interrogados pelo Sinédrio, alguns foram açoitados e liberados. Um ano depois, Estêvão, um dos discípulos, foi convocado perante o Sinédrio e acusado de usar “linguagem abusiva a respeito de Moisés e de Deus”. Ele se defendeu com tanta veemência que os sacerdotes, enraivecidos, mandaram apedrejá-lo até a morte. No ano 41, Pedro foi preso novamente, mas, escapou.

Em 65 anos depois de Cristo, os judeus se revoltaram contra Roma, os judeus cristãos, indiferentes à política, retiraram-se para Pela, na margem oriental do Jordão. Os judeus acusaram os cristãos de covardia e traição, e os cristãos saudaram a destruição do Templo, em 70 anos depois de Cristo, como o cumprimento de uma das profecias de Jesus. O ódio mútuo inflamou as duas fés e propiciou a escrita de parte da literatura mais piedosa desses dois grupos.

Pedro partiu para pregar a nova religião na Síria e em locais do Oeste até chegar a Roma, onde fundou a Sé (sede) de Pedro, tornou-se primeiro Papa e foi crucificado em 64 anos depois de Cristo, durante as perseguições realizadas no reinado de Nero. A tradição católica afirma que a famosa Basílica de São Pedro foi construída no local em que Pedro morreu e que o altar-mor lhe cobre os ossos.

Assim como Pedro fundou a Igreja, Paulo fundou o credo. Paulo nasceu na cidade helenizada de Tarso, na colônia romana da Cilícia, na Ásia Menor. Seu pai chamou-o de Saulo e transmitiu-lhe duas orgulhosas honrarias: a de ser um destacado fariseu e cidadão romano. Enviado a Jerusalém para receber uma instrução judaica mais completa, Paulo, como os romanos o denominaram, apoiou o Sinédrio na condenação a Estêvão e realizou uma viagem a Damasco para erradicar a comunidade cristã ali estabelecida. A história é conhecida: no caminho, ele sofreu um ataque, aparentemente provocado pelo calor e pelo brilho do sol no deserto. Ficou cego, caiu no chão e pensou ouvir uma voz dizendo: “Saulo, por que me persegues? Foi levado à cidade e ali ficou três dias sem enxergar. “não comia nem bebia”. Então um recém-convertido aproximou-se e impôs as mãos sobre ele, dizendo: “Irmão Saulo, foi o Senhor quem me enviou a ti, esse Jesus que apareceu na estrada que tu seguias, para que recuperes a visão e recebas a plenitude do Espírito Santo”. E imediatamente caiu-lhe dos olhos algo parecido com escamas e ele recuperou a visão, levantou-se e recebeu o batismo. Então Saulo ficou sete dias com os discípulos que estavam em Damasco e imediatamente prega a imagem de Cristo na sinagoga.

Assim começou a missão histórica do mais célebre dos discípulos. Junto com Barnabé, outro recém-convertido, Paulo partiu para pregar a nova fé nas cidades do norte. Em Antióquia, o Evangelho foi bem recebido pela comunidade judaica e por alguns não judeus. Contudo, estes últimos levantaram uma questão vital para a difusão do cristianismo: todos os convertidos deveriam aceitar o Código de Moisés, com as sua 613 leis? E a circuncisão? Paulo e Barnabé não insistiram nisso e logo foram interpelados por violarem o exemplo de Cristo. Voltaram a Jerusalém e discutiram o assunto com os Apóstolos. Pedro concordou com eles, pois, também aceitara convertidos não–circuncidados. A maioria dos Apóstolos fez objeções, achando que a circuncisão fazia parte do acordo de Abraão com Deus. Paulo respondeu que, a menos que os convertidos não-judeus fossem poupados desse acordo, o cristianismo seria simplesmente um ramo do judaísmo, e, desapareceria, dentro de um século. Os Apóstolos cederam. Paulo reassumiu a sua missão de “Apóstolo dos gentios” e levou o Evangelho desde Éfeso até Atenas e Roma. Por um momento o destino de uma grande religião dependera de um fragmento de carne.

Paulo foi crucificado em Roma, provavelmente no mesmo ano 64 da morte de Pedro. Através das atividades de ambos e daqueles milhares de outros portadores da “Boa Nova”, a Igreja Cristã assumiu o seu formato e iniciou a tarefa histórica de dar a um império moribundo e a seus invasores bárbaros uma fé viva, uma esperança firme e um código moral baseado num Deus onipresente e onipotente.

 

Postado em: 23/07/10 11:56    [ 1 comentário ] [ indique esta mensagem ]

17 DE JULHO

As rebeliões das polícias militares tiveram início em uma corporação, de Belo Horizonte, quando um cabo de polícia foi morto, às portas do Palácio da Liberdade. Desdobrou-se, como um rastilho de pólvora, nas cidades de Belém do Pará, Teresina, João Pessoa e, concomitantemente, em Recife e Maceió.

Na terça-feira, 15 de julho, centenas de policiais militares desfilaram pelas ruas centrais da capital alagoana, reivindicando uma causa mais do que justa: a regularização de seus salários atrasados. Reconhecíamos ser legítimo o pleito. Só que não podia ficar restrito ao poder armado do Estado. A pretensão é verdadeira para todo o funcionalismo.

Tomando conhecimento de que a passeata estava diante do Palácio Marechal Floriano, dirijo-me ao Salão dos Despachos, símbolo da governabilidade. Permaneço com o vice-governador, ao lado de pequeno número de amigos e oficiais do Gabinete Militar, que ali se encontravam. O cargo exigia uma atitude de coragem cívica. Nada de grave aconteceu.

No dia 17 de julho, a concentração foi na Praça Dom Pedro II, em frente à Assembléia Legislativa. O Deputado João Neto, Presidente do Poder, havia solicitado tropas federais para garantir a tranqüilidade dos trabalhos. A multidão invade a praça. Os soldados atiram para o alto. Generaliza-se o pânico, com perspectivas de tiroteios. O Presidente da Assembléia me telefona, angustiado, pedindo que crie condições para que eles possam sair ilesos. Assistindo, pela televisão, à correria reinante na praça, preocupado que ninguém seja morto, decido esvaziar o movimento tirando uma licença, com prazo determinado. Telefono para o Presidente Fernando Henrique dizendo que era a melhor solução, para evitar um conflito de conseqüências imprevisíveis e informo que estava passando o governo para o vice, Manoel Gomes de Barros, como já fizera dezenas de vezes, em decorrência da praxe que havia assumido de não haver, entre nós dois, nenhuma solução de continuidade. O Presidente da República concorda e manda a Maceió o General Alberto Cardoso, em companhia do Ministro da Justiça, Senador Iris Rezende, como observadores dos acontecimentos. A Praça Dom Pedro II esvazia-se no início da tarde. A cem metros do logradouro, tanto em direção às ruas do Comércio, do Imperador e João Pessoa, tudo estava calmo, ao contrário de Recife, que, durante três dias, ficara exposto ao vandalismo. Os inúmeros assaltos obrigaram os comerciantes, nos bairros, a fecharem suas portas. Em Fortaleza, um soldado atira no Comandante Geral da Polícia Militar que permaneceu entre a vida e a morte.

Os ministros chegaram no fim do dia. Conversamos assuntos gerais e os conduzo à entrada principal do Palácio, defronte à Praça Floriano Peixoto, onde não existia qualquer agitação.

Reuni os Deputados da bancada governista e formalizei a transferência do governo, durante o período de licenciamento. Pedi que fossem leais ao “Mano” como tantos foram a mim. O Vice-Governador e o Presidente da Assembléia acompanharam-me até o automóvel, na garagem do Palácio.

Os inimigos, e alguns falsos amigos, inventaram que eu havia saído pela porta dos fundos. A falsidade é uma conseqüência da fragilidade de caráter. Dois dias antes, sem me intimidar diante da multidão, recusara-me a sair do Palácio. Não havia sentido em abandoná-lo quando inexistia qualquer tumulto e os funcionários do gabinete ofereciam total solidariedade.

Numa atitude consciente, que revelou a prevalência dos interesses coletivos, decidira licenciar-me da Chefia do Governo de Alagoas e, em conseqüência, passar, nos termos da Constituição, o exercício do cargo ao Vice-Governador Manoel Gomes de Barros.

O gesto, naquele instante anunciado, emanou de quem, Governador de Alagoas pela terceira vez, legítima e democraticamente eleito, no último pleito sucessório, pela expressiva marca de oitenta e dois por cento da vontade popular, sempre deu tudo por Alagoas. Significou, também, meu permanente empenho em zelar pela segurança e tranqüilidade dos alagoanos, cujos superiores anseios não podiam ficar à mercê de manifestações emocionais exacerbadas, mas, ao contrário, precisavam do resguardo  de gestos afirmativos e de grandeza pessoal. 

Estava convicto das responsabilidades políticas e sociais inerentes à alta investidura de Primeiro Mandatário do Estado e, orientado pelo sincero desejo de contribuir para a normalização imediata do quadro adverso por que passava Alagoas. Inspirou-me, também, o objetivo de evitar traumas à sociedade. Entendi ser aquele meu dever, após detida análise da situação, com os integrantes do Primeiro Escalão do Governo.

Ao longo de 35 anos, fui merecedor da confiança e do respeito dos alagoanos, que, pelo voto livre e democrático, sagraram-me vitorioso em todas as disputas eleitorais.

Oriundo da classe média, fiel aos valores éticos e humanísticos que formam minha personalidade, percorri um longo trajeto entre o cargo de diarista da Prefeitura,  Prefeito eleito de Maceió e do Governo de Alagoas, passando pela Presidência da Assembléia Legislativa, pela Liderança da Maioria no Palácio Tavares Bastos, pelos cargos de Secretário da Fazenda e de Presidente da Associação Brasileira dos Municípios, além de ter desempenhado os mandatos de Deputado Estadual, de Deputado Federal e de Senador da República.

Da política, fiz um exercício constante de servir ao povo, especialmente às camadas mais humildes da sociedade alagoana, das quais emergi e que me projetaram para o exercício das funções mais relevantes da vida política e administrativa da nossa querida Alagoas, quando, sempre procurei observar os princípios da honestidade e da consciência social, para melhor sentir e interpretar os anseios populares mais genuínos.            

Embora tendo sido um alvo constante de exposições caluniosas, fruto da paixão política e do emocionalismo, cheguei ao fim de minha vida pública possuindo um modesto patrimônio material, construído, exclusivamente, com o produto das minhas atividades remuneradas. É o legado maior que me honra transmitir à minha família e que, também, testemunha a decência com que me conduzi na vida pública.

Como Governador de Alagoas, em três mandatos, conforta-me saber haver deixado marcas jamais superadas por qualquer outro governante desta terra, na construção de estradas asfaltadas, de casas populares, de unidades educacionais e hospitalares e de outras obras em que se assenta o desenvolvimento econômico do Estado.

São realizações que, certamente, falam com maior eloqüência do que eventuais assacadilhas injuriosas. Por formação e índole, jamais cultivei o sentimento do ódio, nem o desejo estéril da vingança. A tudo suportei, com paciência e espírito de tolerância, consciente de que os verdadeiros homens públicos pagam o alto preço da incompreensão.

Com a tranqüilidade de quem se escravizou ao trabalho e à função, na tentativa de reverter a crise e de procurar saídas que pudessem minorar o sofrimento dos alagoanos, licenciei-me do cargo de Governador.

Naquele grave e singular momento de nossa História, preferi o sacrifício  momentâneo de minha carreira política, certo de que  estava contribuindo para a solução de uma crise que ameaçava as bases do Estado e a todos penalizava, indistintamente.

No início de novembro reassumi o governo e, solenemente, desincompatibilizei-me, para disputar uma vaga na Câmara Federal.

Sem mandato, com limitados recursos para enfrentar uma campanha política, vivendo a solidão que o imediatismo das lembranças de fatos recentes impunha aos que teimavam em limitar seus falsos julgamentos ao curto prazo de poucos meses de minha longa vida pública, fui agradavelmente surpreendido com a solidariedade e o aconchego encontrado no Escritório da Rua Santa Fernanda, que já me acolhera em outras oportunidades e onde um seleto grupo de amigos instalara, coordenados pelo casal Rostand e Marlene Lanverly, sem custos para mim, um gabinete que me esperava com a costumeira solidariedade desinteressada. Ali, no ambiente fraterno de poucos, mas, fiéis colaboradores, reiniciei minhas atividades literárias e reabasteci-me do otimismo necessário para enfrentar a luta que, 30 meses após, me reconduziria ao Congresso Nacional.
         

 

 

Postado em: 19/07/10 13:21    [ 4 comentários ] [ indique esta mensagem ]

O Cristo Humano (Condensado do livro Heróis da História, de Will Durant) Divaldo Suruagy


            O Evangelho de São Marcos, hoje atribuído ao período entre 65 anos depois de Cristo, aparentemente circulou enquanto alguns apóstolos ainda estavam vivos e podiam contradizê-lo. Não é possível que São Paulo pregasse a religião de Cristo se duvidasse da existência do pregador crucificado a quem os apóstolos dedicavam suas vidas. Seria um milagre que uns poucos homens simples conseguissem em poucos anos inventar uma personalidade tão poderosa e tão atraente como Jesus, bem mais incrível do que qualquer outra registrada nos Evangelhos. Depois de dois séculos de crítica extremada, os esboços da vida, do caráter e do ensinamento de Cristo permanecem razoavelmente claros e constituem o traço mais fascinante do panorama do homem ocidental.

                        Conforme os humores da história, ele nasceu três ou quatro anos “antes de Cristo”, ou seja, segundo o Evangelho de São Mateus ( Mateus 2:15), antes da morte do rei Herodes, o Grande, que morreu em 4 anos antes de Cristo era natural de Belém, na Judéia ou segundo alguns, de Nazaré, na Galiléia. O mesmo evangelho localiza a ancestralidade de Jesus desde o rei Davi até “José, esposo de Maria” – o que parecia combinar bem com a convicção judaica de que o Messias que redimiria Israel e lhe devolveria a glória seria um descendente de Davi, porém Mateus acrescenta que “quando Maria desposou José, antes de levarem vida em comum, ela ficou grávida por obra do Espírito Santo” (Mateus 1: 18). O Evangelho de Lucas amplia o milagre em bela literatura: “O anjo Gabriel chegou até ela e disse: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor esteja contigo, Bendita sejas entre as mulheres”, ao que Isabel, prima de Maria, ao ouvir isso, acrescentou: “E bendito seja o fruto do teu ventre”, e essa se tornou a mais bela oração católica. Maria respondeu com o magnífico Magnificat, que inspirou tantas músicas grandiosas: “Minha alma engrandece o Senhor e o meu espírito alegra-se intensamente em Deus, meu Salvador. Pois, ele olhou para a humanidade da sua serva, de agora em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada”. (Lucas, 1:46-48).

                        A história de que ele questionou os sábios do Templo não é inacreditável: ele possuía mente alerta e curiosa, e no Oriente Próximo um rapaz de doze anos já se aproxima da maturidade. Frequentou a sinagoga e ouviu as Escrituras com evidente satisfação, os Profetas e os Salmos ajudaram a moldá-lo e se inculcaram profundamente na sua memória. Talvez ele também tenha lido os livros de Daniel e Enoque, cujas visões do Messias, do Juízo Final e da chegada do Reino dos Céus estão presentes nos seus ensinamentos posteriores.

            Mateus e Marcos descrevem João vestido de peles alimentando-se de gafanhotos mortos e mel, às margens do rio Jordão, convocando as pessoas ao arrependimento, batizando penitentes para um renascimento espiritual. Advertia os pecadores a se prepararem para o Juízo Final e proclamava a próxima chegada do Reino dos Céus. Se toda a Judéia se arrependesse e se purificasse do pecado, diz João, o Messias e o Reino dos Céus chegariam.

            Quando João Batista foi preso, Jesus assumiu o seu trabalho e começou a pregar a chegada do Reino dos Céus. “Voltou à Galiléia e ensinou nas sinagogas”, diz Lucas. “O espírito do Senhor está comigo, porque Ele me ungiu pra pregar aos pobres a Boa Nova. Ele me enviou para curar os corações partidos, para pregar a liberdade dos cativos e a recuperação da visão dos cegos, e para libertar os oprimidos”. (Isaías 56:1-2). “Os olhos de todos na sinagoga se fixavam nele. E todos falavam bem dele e se admiravam das palavras animadoras que lhe saíam dos lábios”, acrescenta Lucas (Isaías 4: 19).

                        Em geral, dizem que ele era o mais adorável de todos os homens. Muitas mulheres percebiam nele uma ternura solidária que inspirava uma devoção inabalável. Assim, lemos sobre a prostituta que, emocionada porque Jesus aceitava prontamente os pecadores arrependidos, ajoelhou-se diante dele, ungiu-lhe os pés, derramou lágrimas sobre eles e enxugou-os com os cabelos. Quando alguns espectadores protestaram, Jesus respondeu: “Seus numerosos pecados lhe foram perdoados, já que mostrou muito amor”. – Lucas 7:37-38,47).

             A presença de Jesus e a sua fé foram, em si, um tônico, ao seu toque otimista, os fracos se tornavam fortes e os doentes se sentiam bem. É impossível estabelecer limites para os poderes que existem no pensamento e na vontade de pessoas dotadas de força e convicção.

 

 

Postado em: 16/07/10 13:16    [ 2 comentários ] [ indique esta mensagem ]

MARCO AURÉLIO - (Condensado do livro Heróis da História, de Will Durant) Divaldo Suruagy

Marco Aurélio decidiu governar mais pelo exemplo do que pela lei. Não se permitiu luxos, assumiu todas as tarefas da administração e cansou-se dando audiência a todos. Logo todo o Império dava-lhe as boas-vindas, como se o sonho de Platão tivesse se tornado realidade:
Um filósofo era rei.
Sua fama de filósofo encorajou os bárbaros a tentarem outra investida contra as fronteiras romanas. Em 167, as tribos do norte do Danúbio atravessaram o rio, num ataque-surpresa contras as legiões depauperadas pela guerra e pela peste. Marco Aurélio pôs de lado os livros, organizou um novo exército convocando policiais, gladiadores, bandidos, escravos e treinou-os para a disciplina e a força, liderou-os com estratégia e habilidade através de uma dura campanha até a vitória, e retornou a Roma para enfrentar os problemas da sucessão. Esperara educar o filho Cômodo em filosofia e na arte de governar, mas o jovem fugiu dos estudos para os gladiadores e logo superou os seus imprudentes companheiros na ação violenta e no discurso áspero.
Enquanto isso, os nativos romanos perdiam número e vigor através da esterilidade e do ócio, e os bárbaros se multiplicavam pela fertilidade e pela vida árdua. Nos sete anos entre 168 e 176, o império foi atacado, em um ponto depois do outro, pelos chatis, marcomanos, mouros, sármatas, invadiram a Grécia e chegaram a 22 quilômetros de Atenas, outros atacaram a Espanha romana, alguns cruzaram os Alpes, ameaçaram Veneza e Verona e devastaram os ricos campos do norte da Itália.
Nesses anos. Marco Aurélio foi intermitentemente atacado por uma dolorosa doença do estômago que resistiu a todos os diagnósticos e até mesmo aos remédios de Galeno. Emaciado, com a barba para fazer, os olhos cansados de ansiedade e insônia, o solitário imperador trocou novamente as preocupações domésticas pelas desagradáveis tarefas da guerra.
Nessa campanha ao longo do Danúbio, nos intervalos da ação. Marco Aurélio escreveu em grego o pequeno livro conhecido como Meditações ou Pensamentos, que ele intitulou Ta eis heuton – Para Ele. Propunha-se a reassumir as conclusões a que chegara sobre as primeiras e últimas coisas da vida. Perdera a fé religiosa romana oficial e não adotara nenhum dos novos credos vindos do Oriente, mas, não duvidava que uma inteligência misteriosa criara o universo porque encontrara na natureza muitos sinais e formas de ordem. Percebia que todas as coisas eram determinadas pela razão universal – a lógica inerente ao todo, e que cada parte deveria aceitar alegremente o seu modesto destino.
A maneira para se lidar com eles é lembrar-lhes que também são homens, que são indefesas vítimas dos próprios erros, pelo determinismo das circunstâncias. “Se um homem te faz mal, o mal é dele, ... perdoa-o”. Parece uma filosofia impraticável? Ao contrário, nada é tão invencível quanto uma boa disposição, se for sincera. Um homem realmente bom é imune aos infortúnios porque a sua alma permanece tranquila, ainda que todos os males recaiam sobre a sua cabeça. Filosofia não é lógica nem cultura, mas, sim compreensão e aceitação.
Marco Aurélio enfrentou a morte sem esperar felicidade além-túmulo e sem confiar no filho que o sucederia. Durante seis anos continuou as campanhas no norte e com tamanho sucesso que, ao voltar a Roma, em 176, mereceu uma recepção triunfal como salvador do Império. Sabia que a vitória era apenas temporária, e dois anos mais tarde partiu novamente para reprimir a multidão dos germanos. Morreu nessa campanha (180), tendo transgredido o princípio de adoção por amor ao filho.
Cômodo inaugurou o longo declínio do Império Romano enquanto os cristãos, amedrontados e escondidos na multidão, esperavam pacientemente pelo triunfo de Cristo.
 

Postado em: 05/07/10 13:08    [ 0 comentários ] [ indique esta mensagem ]

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