Ela caiu nas graças do público pelo YouTube com o curta-metragem Tapa na Pantera, filme de conclusão do curso de cinema da Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP) dos alunos Esmir Filho, Rafael Gomes e Mariana Bastos, que ultrapassou a marca de 5 milhões de acessos. Na última edição da feira Primavera dos Livros, que aconteceu em São Paulo de 25 a 27 de setembro, Maria Alice Vergueiro lançou sua autobiografia Tapa na Pantera na íntegra - uma autobiografia não autorizada (Ficções). É nesta publicação que o mito da Pantera é revelado, fazendo transparecer uma atriz além da personagem legalize que lhe rendeu fama repentina na rede.
Ao longo das quase cinco décadas de profissão, Maria Alice trabalhou ao lado do diretor Zé Celso no Teatro Oficina, fundou com Cacá Rosset o grupo Teatro do Ornitorrinco, deu aulas na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, mas foi convidada a se retirar, teve duas experiências engessadas na TV e poucas no cinema. Depois da leitura da biografia, que recorre à linguagem descontraída de uma conversa online, a CULT entrou em contato com a atriz para tentar aprofundar algumas passagens. Veja a entrevista na íntegra abaixo.
CULT - "Eu tive muita dificuldade para conciliar meu papel de mãe comigo mesma". Na ordem cronológica do livro, esse comentário está ligado ao momento em que você se separou e investiu no teatro depois de ter adiado oportunidades anteriores. Algum ressentimento?
Maria Alice - Não. Nenhum. Eu sempre estive consciente das minhas escolhas.
CULT - "Tive algumas boas experiências sexuais". Nesse trecho você remete ao desprendimento e autoconhecimento. Você diria que isso foi fundamental para sua formação como atriz brechtiana?
Maria Alice - Acrescentou sim. O corpo é muito importante na expressão do trabalho teatral. Conhecendo seu próprio corpo, suas reações, você aprende a molda-lo de acordo com o perfil do trabalho.
CULT - "Não dava mais para eu viver dentro da faculdade com minha cabeça". Aqui você fala sobre a experiência de ter lecionado na ECA. Se tivesse tido a oportunidade efetiva de se impor, o que teria sido diferente?
Maria Alice - Estávamos em uma ditadura. Me impor era impossível. Busquei outro caminho para me expressar.
CULT - "Finalmente me sindicalizei. Atriz" Foi um divisor de águas, um ponto final nas discussões internas?
Maria Alice - Sem dúvida. Sindicalizar-se naquela época era uma tomada de posição clara e transparente. Você tinha que estar preparada pra o que vinha depois disso.
CULT - "Deixa o caos entrar". Como foi confrontar as experiências adquiridas com o Oficina e o Ornitorrinco com o minimalismo de Samuel Beckett?
Maria Alice - Essa frase é do próprio Beckett, e ela sempre me inspirou em momentos decisivos, pois eu acredito que existe uma ordem oculta dentro do caos.
CULT - "Maria Alice leva seu cachimbo para a Rede Globo". O que tirar de duas experiências engessadas na TV?
Maria Alice - É impossível eu trabalhar numa TV que tenha uma política engessada nas suas criações. O dia que isso mudar por que não?
CULT - "Tive várias pessoas que me inspiraram". Você citou Alejandro Jodorowski na biografia. Mais alguém extra-livro para lembrar aqui?
Maria Alice - Luciano Chirolli meu companheiro de trabalho há 15 anos e que irá me acompanhar novamente ( já que você cita Jodorowsky ), no meu mais novo projeto, uma montagem da peça as Três Velhas, prevista para o início de 2009.
CULT - "O importante é não achar que velhice é doença". Você parece muito bem resolvida com a morte.
Maria Alice - O meu único problema com a morte seria a dor. Que fosse uma passagem sem dor.
CULT - "Estou com 73 anos e sou uma velha que não é velha". Quais são seus planos pós-Pantera?
Maria Alice - É sem dúvida a minha peça. O pior da velhice é não envelhecer.
por UOL